
O importante na obra artística é o resultado estético em si mesmo.
Assim, na avaliação de seu mérito, não interessam as circunstâncias históricas do local e época em que foi criada.
Também não interessam as características pessoais físicas e origem étnica de seu autor, nem os acontecimentos de sua vida privada e suas opiniões de uma forma geral.
Conseqüentemente, a excelência de uma obra artística depende tão somente das soluções que lhe imprimem o conhecimento, a criatividade, a habilidade, o esforço e a inteligência do indivíduo que a produz.
No entanto, pressões coletivistas e modos de pensar deterministas estão sempre a afligir a vida do artista, ameaçando tolher-lhe a liberdade de criação pela raiz.
Isso não é recente. Passaram-se muitos séculos antes que se desse a aceitação da criação artística livre de vínculos, de qualquer espécie, com convicções filosóficas, ideológicas ou religiosas.
Dentre todas as artes, é na música que a tentativa de associar a matéria puramente estética com elementos que lhe são exteriores é mais esdrúxula, por ser ela a mais abstrata. Na música, uma nota, um acorde ou uma escala, por si sós, não têm nenhuma relação com o mundo das coisas concretas. Em contrapartida, na arte da literatura, por exemplo, o signo lingüístico quase sempre nos remete, de uma forma geral - mais direta ou mais sutilmente - a um objeto (ou seu atributo) ou ação do mundo real. O mesmo se pode dizer, ainda mais propriamente, das artes plásticas figurativas, do teatro e do cinema.
Talvez seja por esta razão que a música costuma despertar o interesse de um maior número de pessoas:
- quando é acompanhada por texto literário, como canções, ou movimento coreográfico, ou fundo musical, como numa cena cinematográfica.
- quando faz parte de um ritual religioso ou evento social.
Foi da ação constante de indivíduos de diversas localidades e épocas que surgiu, no ocidente, a Arte Musical Autônoma. Esses bravos lançaram-se de corpo, alma e razão à grande tarefa de lapidação e organização das sonoridades brutas e, na sua incessante procura do Belo pelo Belo acabaram, de uma forma mais clara em alguns momentos que em outros, por legar à humanidade gigantescos sistemas composicionais que resultaram em construções musicais de riqueza insuperável.
Aqueles que utilizam as artes com propósitos outros que não estéticos são livres para fazê-lo. No entanto, não possuem o direito de “patrulhar” os que com eles não concordam. Atos de discriminação da obra autônoma representam uma ameaça não apenas a ela em si e à integridade artística de seu autor, como também à liberdade individual como valor universal, e devem ser rechaçados incondicionalmente.
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